Discurso de posse do Dr. João Guimarães Rosa
Discurso

“Grande é, agora, a minha satisfação, grande a distinção que me conferis, neste momento. Honra e alegria, indizíveis; porque, à falta de outros títulos, com dois dêles me reconheço, ao ser empossado no cargo de sócio titular desta agremiação: como velho admirador da Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro, e como velho amoroso da Geografia. Admirador desvalioso e amoroso ignorante, certo; mas rico de entusiasmo e de sinceridade. E é assim que vos agradeço. Aos que propuzeram o meu nome, aos que aprovaram a proposta, aos que ora me recebem. Devo explicar-me. De inicio, o amor da Geografia me veiu pelos caminhos da poesia – da imensa emoção poética que sobe da nossa terra e das suas belezas: dos campos, das matas, dos rios, das montanhas; capões e chapadões, alturas e planuras, ipuêiras e capoeiras, caátingas e restingas, montes e horizontes; do grande corpo, eterno, do Brasil. Tinha que procurar a Geografia, pois. Porque, ‘para mais amar e servir o Brasil, mistér se faz melhor conhecê-lo’; já que, mesmo para o embevecimento do puro contemplativo, pouco a pouco se impõe a necessidade de uma disciplina científica. Desarmado da luz reveladora dos conhecimentos geográficos, e provido tão só da sua capacidade receptiva para a beleza, o artista vê a natureza aprisionada no campo punctiforme do momento presente. Falta-lhe saber da grande vida, evolvente, do conjunto. Escapa-lhe a majestosa magia dos movimentos milenários: o alargamento progressivo dos vales, e a suavização dos relêvos; o rejuvenescimento dos rios, que se aprofundam; na quadra das cheias, o enganoso fluir dos falsos – braços, que são abandonados meândros; a rapina voraz e fatal dos rios que capturam outros rios, de outras bacias; o minucioso registro dos ciclos de erosão, gravado nas escarpas; as estradas dos ventos, pelos vales, se esgueirando nas gargantas das serranias; os pseudópodos da caàtinga, invadindo, pouco a pouco, os «campos gerais», onde se destrói o arenito e onde vão morrendo, silentes, os buritís; e tudo o mais, enfim, que representa, numa câmera lentíssima, o estremunhar da paisagem, pelos séculos.

Ainda agora, faz menos de uma semana, acabo de regressar de uma excursão de férias, extenuante mais proveitosa, realizada apenas para matar saudades da minha região natal e para rever velhos poemas naturais da minha terra mineira.

Quanta beleza! Ávido, fiz, num dia, seis léguas a cavalo, para ir contemplar o rio epônimo – o soberbo Paraopeba – amarelo, selvagem, possante. O ‘cerrado’, sob as boas chuvas, tinha muitos ornatos: a enfolhada capa-rosa, que proíbe o capim de medrar-lhe em tôrno; o pau bate-caixa, verde-aquarela, musical aos ventos; o pao santo, coberto de flores de leite e mel; as lobeiras, juntando grandes frutas verdes com flôres rôxas; a bôlsa-de-pastor, brancacenta, que explica muitos casos de ‘assombrações’ noturnas; e os barbatimãos, estendendo fieiras de azinhavradas moedinhas. Os campos se ondulavam, extensos. Sôbre os tabuleiros, gaviões grasniam. A Lagoa Dourada, orgulho do Município, era um longíquo espêlho. A Lagoa Branca, já hirsuta de juncos, guarda ainda o segredo do seu barro, que, no dizer da gente da terra, produz, na pele humana, intensa e persistente comichão. Buritís, hieráticos, costeiam, por quilômetros, o Brejão do Funil, imenso, onde voam os cócos e se congregam, às dezenas as garças. E, enfim, do ‘Alto Grande’, mirante sem prêço, a vista se alongava, longíssima, léguas, até o azulado das montanhas, por baixadas verdes, onde pedaços do rio se mostravam, brilhantes, aqui e ali, como segmentos de uma enorme cobra-do-mato. Dois dias depois, estava eu visitando, em Cordisburgo – meu torrão inesquecível – a maravilha das maravilhas, que é a Gruta do Maquiné. E, aqui, confesso, muita coisa se revelou a mim, pela primeira vez. Certo, eu já pensava conhecer, desde a infância, os feéricos encantos da Gruta e as suas deslumbrantes redondezas: môrros, bacias, lagoas, sumidouros, monstruosos paredões de calcáreo, com o raizame laocôontico das gameleiras priscas, e o róseo florir das cactáceas agarrantes. Mas, era que, desta vez, eu trazia comigo um instrumento precioso – bússola, guia, roteiro, óculo de ampliação: o trabalho que devemos à minuciosa operosidade, ao sentimento poético, à capacidade científica e ao talento artístico do meu saudoso amigo Afonso de Guaira Heberle: o reconhecimento topográfico ‘A Gruta de Maquiné e os seus Arredores’. Deu-se a valorização da estesia paisagística, graças às lições da ciência e da erudição. Prestígio da Geografia! Mas, meus senhores, estou começando mal, por um abuso, e devo sustar esta longa explicação. Do que disse, de modo tão imperfeito, podereis avaliar o que sinto, perfeitamente. Rogo-vos apenas crer na sinceridade da minha emoção e no fervor dos meus propósitos, ao ser recebido, como sócio titular desta douta e abnegada Sociedade, que, em labor silencioso e diuturno, há tantos anos vem servindo o Brasil.”

Glossário

Planuras: terreno que se estende em planície; planalto. Ipuêiras: charco ou lagoeiro formado pelas águas que transbordam dos rios em lugares baixos.
Capoeira: mata talhadiça que se roça ou derriba para lenha, para cultivar a terra ou com outro fim; mato fino, nascido no lugar do virgem.
Punctiforme: que tem forma ou aparência de ponto ou ponta.
Epônimo: diz-se de ou aquele que dá ou empresta o seu nome a alguma coisa; diz-se de nome alcunhado de deuses e deusas, cidades etc.; que recebeu o nome de uma pessoa; aquele ou aquilo (personagem mítico ou histórico) que dá o nome a qualquer coisa (país, cidade, povo etc.) ou pessoa, como p. ex. Atena > Atenas, Rômulo> Roma, Bolívar > Bolívia; denominação formada pelo nome de uma pessoa ou que o inclui, p. ex. abreugrafia, Mal de Parkinson.
Hirsuta: que é coberto por pelos longos, ásperos e flexíveis (folha hirsuta).

  • Laocôontico*: diz respeito à forma como as raizes se agarram e se entremeiam, aqui o autor faz uma referência ao grupo escultório “Laocoonte e seus filhos” ou “o grupo de Laocoonte” . Trata-se de um grupo escultórico em mármore que representa a lenda de Laocconte, sacerdote de Apolo que contra a vontade deste deus casou-se e teve dois filhos, Antífantes e Timbreu. Laocoonte buscou por todos os meios evitar que os troianos trouxessem para dentro da cidade o cavalo de Tróia, deixado pelos gregos. No entanto, Apolo enviou duas serpentes gigantes que mataram Laocconte e seus filhos, numa cena de grande dramaticidade. A datação da obra é incerta. Mencionada em um texto de 77 d.C por Plínio o Velho, a obra foi “redescoberta” no século XVI em Roma e teve enorme influência sobre a escultura renascentista, pela ênfase na anatomia e nas torções dos corpos e nas expressões de dor e sofrimento de pai e filhos prestes a morrer. Hoje exposta no Vaticano, a escultura inspirou artistas e gerou ensaios de estética, como por exemplo o de Gotthold Lessing datado de 1776. http://www1.folha.uol.com.br/fsp/resenha/rs10049914.htm
    AULETE, Caldas. Diccionario contemporaneo da lingua portugueza. Lisboa [Portugal]: Parceria Antonio Maria Pereira, 1925, Disponível em: http://www.auletedigital.com.br/

Sobre este documento

Título
Discurso de posse do Dr. João Guimarães Rosa
Tipo de documento
Discurso
Origem

João Guimarães Rosa. “Discurso de posse do Dr. João Guimarães Rosa”. Revista da Sociedade Brasileira de Geografia, Tomo LIII, 1946, p. 96.
http://memoria.bn.br/pdf2/181897/per181897_1946_00001.pdf

Créditos

João Guimarães Rosa